
O uso de tornozeleiras eletrônicas como medida alternativa à prisão tem crescido de forma expressiva em Mato Grosso, mas também tem revelado distorções no sistema. O número de monitorados saltou de 511 em 2014 para 7.184 em 2025, um aumento de mais de 1.300%.
Com essa expansão, surgiu uma prática criminosa conhecida como “aluguel de tornozeleira”. Presos que deveriam estar sendo monitorados pagam para que outra pessoa utilize o equipamento em seu lugar, enganando as autoridades responsáveis pelo controle. Os valores cobrados variam entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil mensais, podendo chegar a cifras exorbitantes de até R$ 19 mil.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu com o tesoureiro do Comando Vermelho em Mato Grosso, Paulo Witer Faria Paelo, conhecido como WT. Ele foi preso em 2024 durante a segunda fase da operação “Apito Final”. Para se livrar da fiscalização, WT contratava Jeferson da Silva Sancoviche, apelidado de “Japão”, que recebia até R$ 19 mil por mês para manter a tornozeleira em funcionamento em um apartamento de luxo em Cuiabá, enquanto o verdadeiro monitorado circulava livremente por outros estados.
A fraude foi descoberta quando Jeferson foi flagrado deixando o imóvel carregando a tornozeleira, usada para simular que o criminoso estava em casa. O dispositivo era até mesmo levado a bairros periféricos da capital para reforçar a farsa, enquanto WT viajava para o Rio de Janeiro e Santa Catarina.
No início de agosto deste ano, a Polícia Civil deflagrou a operação Desterro para desarticular uma facção criminosa investigada pelo desaparecimento de cinco maranhenses em Várzea Grande. Durante a ação, que cumpriu 13 mandados de busca, duas pessoas foram presas em flagrante: uma por porte ilegal de arma de fogo e outra justamente por utilizar uma tornozeleira que deveria estar em outro detento, recebendo para isso um pagamento mensal.
Desafios e riscos
O “aluguel” de tornozeleiras representa grave ameaça à segurança pública, já que permite que criminosos de alta periculosidade circulem sem qualquer tipo de monitoramento real. Além disso, configura fraude processual e pode ser enquadrado como participação em organização criminosa.
Para especialistas, o caso revela a necessidade de reforçar a tecnologia empregada nesses dispositivos e intensificar a fiscalização, garantindo que a tornozeleira realmente cumpra sua função de controle.