
Em pleno Vale do Javari, no interior da Floresta Amazônica, casas de apostas começaram a operar em Atalaia do Norte, atraindo não apenas moradores urbanos, mas também membros de comunidades indígenas locais. No estabelecimento visitado por repórteres, era possível apostar em jogos de futebol ou participar de bingos eletrônicos, com prêmios que chegam a R$ 10 mil nas sextas-feiras.
Um funcionário do espaço afirmou que as apostas são seguras e que os pagamentos são feitos sem atraso. Segundo ele, até indígenas deixam suas aldeias para participar dos jogos, e a movimentação diária chega a ultrapassar 100 pessoas.
Vulnerabilidade e impacto social
O cenário levanta preocupações. Especialistas apontam que a participação de indígenas em apostas revela a fragilidade social dessas populações, que muitas vezes migram para áreas urbanas em busca de serviços e acabam expostas a novos riscos. O comportamento de jogo, segundo avaliação de profissionais da saúde, pode ser comparado ao consumo de álcool, trazendo consequências graves para a vida social e econômica das famílias.
Há relatos de que parte dos recursos do Bolsa Família estaria sendo utilizada para apostas, o que evidencia ainda mais a vulnerabilidade local.
Contexto socioeconômico
Atalaia do Norte enfrenta graves desafios estruturais: é o terceiro município com pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, a maior parte dos empregos formais está no setor público e cerca de 8 mil indígenas vivem na região, muitos em aldeias de difícil acesso.
A cidade ganhou notoriedade internacional em 2022 após o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, episódio que expôs os riscos e a instabilidade que marcam o cotidiano do Vale do Javari.