
Peritos criminais da Polícia Federal recuperaram nove mil diálogos de WhatsApp entre Andreson Oliveira Gonçalves e Roberto Zampieri, apelidados de “lobistas dos tribunais” em investigações sobre um suposto mercado de sentenças em cortes estaduais e até em gabinetes do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O material, que vai de junho de 2019 a dezembro de 2023, foi encaminhado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e reforça suspeitas de cooptação de assessores e magistrados em troca de decisões favoráveis.
Os diálogos foram descobertos no celular de Zampieri, advogado assassinado em 5 de dezembro de 2023, em Cuiabá. A Corregedoria Nacional de Justiça instaurou reclamação disciplinar após a “descoberta fortuita” do conteúdo. Segundo o CNJ, a coleta foi feita de forma cautelar “em razão do risco de destruição ou de restituição do aparelho”.
As mensagens revelam que, apesar da parceria, Andreson e Zampieri tinham atritos quando recursos de alto valor — especialmente relacionados a disputas por grandes áreas de terra em Mato Grosso — eram julgados por desembargadores fora do suposto esquema de propinas. Nessas ocasiões, a confiança dava lugar a cobranças ríspidas e desconfianças.
Zampieri foi morto por um pistoleiro contratado, enquanto Andreson acabou preso na Operação Sisamnes, conduzida pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal. Atualmente, cumpre prisão domiciliar.
Um dos episódios destacados nas apurações envolve um recurso da advogada Míriam Ribeiro Rodrigues de Mello Gonçalves, esposa de Andreson. Em 11 de dezembro de 2019, ele enviou a Zampieri um modelo de agravo de instrumento timbrado do escritório de Míriam. A expectativa era que o caso fosse direcionado “por prevenção” ao desembargador João Ferreira Filho, amigo próximo de Zampieri.
No entanto, a decisão acabou ficando nas mãos do desembargador Sebastião Barbosa Farias, que rejeitou o pedido. O episódio provocou revolta em Andreson, que acusou o parceiro de falhar na articulação.
Zampieri tentou contornar a situação, prometendo que o desembargador João Ferreira reconsideraria a decisão quando retornasse ao tribunal. “Prepare o agravo regimental e entra na segunda-feira. Vai ser reconsiderado”, garantiu, citando a proximidade com o magistrado.
O CNJ avalia que Zampieri explorava sua relação com o desembargador João Ferreira para cobrar valores de clientes, apresentados como honorários advocatícios, em troca de suposta intermediação. O desembargador nega envolvimento em ilícitos ou venda de sentenças.
O acervo de diálogos agora integra o processo disciplinar em análise pela Corregedoria Nacional de Justiça, que deve apurar a extensão das práticas e os possíveis beneficiários do esquema.