
No Brasil, milhares de mulheres vivem uma angústia invisível diante do Sistema Único de Saúde (SUS). Após realizarem mamografias, recebem laudos classificados como BI-RADS 1, 2 ou 3 — categorias que indicam baixo ou nenhum risco imediato de câncer, mas que podem apontar para alterações suspeitas. O que poderia ser uma situação de monitoramento acaba se tornando um pesadelo: o SUS, seguindo protocolos rígidos e prioridades restritas, adia exames complementares, biópsias e cirurgias por meses ou até anos, permitindo que a doença progrida silenciosamente, relatam pacientes.
Entenda as classificações BI-RADS
O sistema BI-RADS (Breast Imaging Reporting and Data System) é uma padronização internacional usada para descrever o risco de câncer de mama a partir da mamografia. As categorias 1 e 2 indicam mama normal ou achados benignos, enquanto a categoria 3 sugere uma alteração “provavelmente benigna”, com até 2% de chance de malignidade, e recomenda nova avaliação em seis meses.
Embora “provavelmente benigno” soe tranquilizador, para muitas mulheres essa espera significa convivência com dor, medo e incertezas. Afinal, o câncer não espera para crescer. Somente a biópsia pode confirmar o diagnóstico com certeza, mas, no SUS, essa etapa pode demorar meses para ser autorizada.
O impacto real na vida das pacientes
Uma paciente relatou ao Atualiza AÍ MT seu próprio drama: “Eu tive um BI-RADS 3, mas mandaram aguardar seis meses. Quando fui reavaliada, o tumor já tinha crescido e virou grau 4. Tive que tirar a mama inteira.” O sofrimento físico e emocional é agravado pela demora. Ela contou que o sistema oferecia apenas paliativos para aliviar a dor, mas nada para tratar a doença na raiz.
Outro depoimento contundente vem de uma paciente que, após enfrentar uma cirurgia que deveria durar 30 minutos, passou cinco horas e meia na mesa de operação devido à extensão do câncer. “Não é fácil, não é fácil. Quando você tem saúde, tudo dá certo, tudo vai pra frente, mas sem saúde é difícil. Eu tô recebendo menos de meio salário, pago 700 reais de aluguel, vem água, luz, remédio, comida. Não é fácil”, desabafa, apelando por ajuda para conseguir realizar um bazar beneficente que lhe permita levantar fundos para seu sustento.
O protocolo do SUS e a omissão
Especialistas afirmam que o SUS mantém protocolos engessados, priorizando apenas casos com suspeita clara de câncer (BI-RADS 4 e 5). A Lei nº 12.732/2012 determina que o tratamento deve começar em até 60 dias após diagnóstico confirmado, mas o sistema só reconhece o câncer quando a biópsia confirma, e essa demora no diagnóstico é o calcanhar de Aquiles que coloca mulheres em risco.
“Eles dizem que BI-RADS 1, 2 e 3 são benignos para evitar gastos e seguir protocolo. Mas isso faz milhares de mulheres ficarem na fila, com câncer se desenvolvendo em silêncio”, alertam especialistas.
A espera que mata: um problema que precisa de atenção urgente
O diagnóstico precoce é a melhor arma contra o câncer de mama. Porém, no SUS, a espera pelo avanço da doença para só então agir revela uma falha grave e cruel no sistema público de saúde. A negligência silenciosa custa vidas, mutilações e sonhos interrompidos.
Mulheres enfrentam um ciclo de medo, dor e abandono, enquanto deveriam receber acolhimento, acesso rápido a exames e tratamento. É urgente repensar protocolos, dar voz às pacientes e humanizar o cuidado.
Denuncie e lute por direitos
Se você ou alguém próximo vive essa realidade, denuncie à Ouvidoria do SUS (telefone 136), ao Ministério Público e busque apoio em movimentos que defendem os direitos das pacientes. A luta contra o câncer começa com informação, rapidez e respeito.
Embora a Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, estabelece o prazo máximo de 60 dias para o início do primeiro tratamento de pacientes com neoplasia maligna (câncer) no Sistema Único de Saúde (SUS), alei não é aplicada. Pacientes relatam que este prazo é contado a partir da data do diagnóstico confirmado. A lei que deveria garantir o acesso rápido e gratuito ao tratamento para pacientes com câncer, buscando melhorar as chances de sucesso no tratamento, que pode incluir cirurgia, quimioterapia ou radioterapia, vem sendo negligenciada, conforme os relatos que o portal teve acesso.
O depoimento de uma paciente, conforma , ela disse que sente o tempo dor e cansaço e eles não fizeram nada, apenas paliativo para mascarar . “E isso aumenta o sofrimento da gente ! Tomei umas vitaminas da uma melhorada mas a doença fica sugando a gente”, lamentou.
Dados de 2022
O Sistema Único de Saúde (SUS) gastou mais de R$ 3,8 bilhões no tratamento do câncer em 2022 — e, segundo pesquisadores, parte significativa desse dinheiro poderia ser economizada se os tumores tivessem sido diagnosticados em fases precoces, quando o tratamento é mais efetivo e mais barato.
Esses são alguns dos achados de uma recente pesquisa do Observatório de Oncologia, que faz parte do grupo da sociedade civil Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), a partir de dados do ano passado disponíveis no DataSUS.
A análise revelou, por exemplo, que uma única sessão de quimioterapia contra o câncer de mama de estadiamento 1 (o mais precoce) custa R$ 134,17 aos cofres públicos. Já na fase 4 da doença ((a mais avançada), essa mesma modalidade de tratamento fica R$ 809,56 — um valor seis vezes mais alto).