
Algumas ideias parecem maluquices à primeira vista… até que fazem sentido demais. Foi assim que me senti em Portland, no Oregon, ao visitar duas vinícolas urbanas e sair de lá com um novo desejo fermentando em meu pensamento: e se eu tivesse a minha própria vinícola urbana? No meio da cidade, com o concreto dando lugar aos aromas de barris e o trânsito dividindo espaço com uvas?
O Oregon — especialmente o Vale do Willamette — é um território fértil. Ali mesmo descobri que boa parte da produção acontece em Corvallis, e que as uvas vêm de todo o Vale e até do leste do estado, como no caso do Yellow Jacket Syrah, da região de Walla Walla (uma das poucas fora do Willamette). Não falo apenas de terroir: há também criatividade na forma como as vinícolas pensam sua produção. Muitas não têm vinhedos próprios; compram uvas de diversos produtores e misturam terroirs, histórias, safras e climas. Algumas mantêm a vinificação no interior (como em Corvallis, a uma hora e meia de Portland), mas trazem a alma do vinho para a cidade — onde o público vive, anda de carro sem motorista, pedala de bike, bebe cerveja e degusta vinho — sempre respeitando o caráter de cada AVA (American Viticultural Area) do estado.
Fiquei fascinada ao saber que o solo vulcânico, formado por lavas milenares, influencia diretamente a estrutura e mineralidade dos vinhos — especialmente nos vinhedos da AVA Laurelwood.
Foi assim que, numa pequena sala de degustação urbana, fui apresentada à seleção de verão da Fullerton Wines , vinícola que trabalha principalmente com Pinot Noir. A apresentação, conduzida com simpatia por uma enóloga apaixonada, começou com um vinho inusitado: o Pinot Noir Blanc — uma uva tinta tratada como vinho branco, sem contato com as cascas. O resultado foi um vinho fresco e frutado, com muita banana no nariz: um branco de verão muito refrescante, que faria sucesso aqui na nossa cuiabrasa.

Na sequência, veio o rosé, um pouco mais herbáceo, com notas cítricas de casca de limão e toranja. Ele envelhece em carvalho por cerca de quatro meses, o que lhe dá mais profundidade de caráter. Para meu deleite, provei também um Pinot Noir de edição limitada, leve e agradável, com toque de cereja mais chuvosa e um suave acento de nozes — simplesmente incrível.
E quando achei que não provaria mais nada, a enóloga trouxe, com orgulho, o Four Barrels Pinot Noir: um blend dos quatro barris favoritos de Sarah Cabot. Três deles vêm do vinhedo próprio — suculentos, com notas de mirtilo e amora silvestre — e o quarto, do vinhedo Yumhella, com cereja chuvosa e corpo aveludado. Um vinho equilibrado e o favorito da casa. Sem palavras!
Na outra vinícola, a Battle Creek Cellars provei o Chardonnay Lux 2020, produzido com muito critério devido aos incêndios que marcaram aquele ano no Oregon. Ele veio exclusivamente do Nemarnicki Vineyards, uma das AVAs mais valorizadas da região. Também degustei um encantador Pinot Noir do Arbor Brook Vineyards, nas Montanhas Chehalem, no coração do paralelo 45 — o mesmo da Borgonha.
O curioso? Tudo isso aconteceu dentro da cidade de Portland. Uma cidade vibrante e alternativa, que acolhe food trucks, artistas de rua, cafés com bicicletas penduradas no teto, muitas cervejarias artesanais — e, claro, vinícolas urbanas, com a mesma naturalidade.
Saí de lá pensando: e se fosse em Cuiabá? Trazer uvas do Sul ou do Vale do São Francisco, montar uma microvinícola no centro, abrir as portas aos curiosos, servir taças sob o sol do cerrado e colocar Mato Grosso no mapa do vinho urbano brasileiro?
Maluquice? Talvez. Mas vinho bom também nasce de ideias ousadas.
E, no fundo da taça, é isso que fica: a vontade de fazer algo que é ao mesmo tempo novo e ancestral. Transformar uva em vinho, lugar em experiência, sonho em realidade. Ainda estou impactada, mesmo dias depois de ter passado por lá. Vou voltar, com certeza.

Convite especial 🍷
Hoje, segunda-feira, 25 de agosto, às 19h, participe de uma degustação em comemoração ao Dia do Sommelier:
“Uma taça, muitas histórias”
Serão 15 rótulos de vinhos + rodízio de massas no Espaço Decorado do Brasil Beach.
📞 Informações: (65) 99307-6666
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Que matéria adorável!
Tantas sensações e informações!
E, no fundo da taça, um lindo sonho que não vejo a hora de você torná-lo realidade!
Uma vinícola cuiabana de chapa e cruz!
Parabéns!