
Uma operação da Polícia Civil de Mato Grosso escancarou, nesta sexta-feira (15), um possível esquema milionário de fraudes em exames laboratoriais e contratos públicos. Batizada de Contraprova, a ação teve como alvo central o laboratório BioSeg, que prestava serviços para prefeituras, convênios privados e atendimentos domiciliares pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Durante o cumprimento de mandados, os investigadores apreenderam planilhas com anotações financeiras que chegam a R$ 100 milhões, além de referências a gabinetes de vereadores da Câmara Municipal de Cuiabá.
Documentos citam contratos com a prefeitura
De acordo com o delegado Rogério Ferreira, da Delegacia de Defesa do Consumidor (Decon), as anotações incluem registros de repasses superiores a R$ 2 milhões da Prefeitura de Cuiabá para o laboratório.
“A simples presença dos nomes nas planilhas não comprova envolvimento direto. Pode se tratar de registros administrativos referentes a contratos oficiais. No entanto, os indícios levantam preocupações sérias”, afirmou Ferreira.
O material passará por análise pericial para rastrear a origem e o destino dos recursos e verificar se houve conluio entre a empresa e agentes públicos.
Fraude em exames e risco à saúde
A investigação começou após denúncias de médicos que perceberam incompatibilidades entre exames entregues pela BioSeg e o estado clínico dos pacientes — muitos deles acamados e atendidos por home care.
Segundo a apuração, amostras biológicas eram descartadas sem análise, e os laudos eram falsificados com resultados genéricos. Além disso, a empresa realizava exames para os quais não possuía credenciamento técnico.
Por ordem judicial, as três unidades da BioSeg — em Cuiabá, Sinop e Sorriso — foram interditadas.
Prisão e suspensão de contratos
O biomédico Igor Phelipe Gardés Ferraz, sócio e responsável técnico da BioSeg, foi preso preventivamente. Seu registro profissional foi suspenso, e a empresa está proibida de firmar novos contratos com o poder público.
Entre os crimes em apuração estão estelionato, falsificação de documentos, peculato e associação criminosa, com penas que podem ultrapassar 25 anos de prisão.
Câmara em silêncio, MP acompanha
Apesar das anotações citarem gabinetes de vereadores, a Câmara Municipal de Cuiabá não se pronunciou oficialmente até o momento. O Ministério Público de Mato Grosso acompanha o caso e já sinalizou que pode ampliar a investigação para verificar o envolvimento de agentes políticos.
A Operação Contraprova começou a partir de uma denúncia feita à Vigilância Sanitária de Cuiabá e já é considerada uma das maiores investigações de fraudes na saúde pública do estado nos últimos anos. Novos desdobramentos são esperados à medida que o material apreendido for periciado.