A neuromodulação vem ganhando espaço na área da saúde como uma tecnologia avançada capaz de auxiliar o cérebro a reorganizar suas conexões e melhorar o funcionamento neurológico. Utilizada em diferentes contextos clínicos, a técnica se destaca por atuar diretamente na comunicação entre os neurônios, promovendo mudanças duradouras no sistema nervoso e abrindo novas possibilidades de tratamento para diversas condições.
De acordo com a fisioterapeuta Dra. Gabrielli Vitali Candido, formada pela PUC-SP e especialista em Neuromodulação pela Unifesp, a técnica consiste no uso controlado de estímulos elétricos, magnéticos ou químicos para interferir na atividade cerebral. Segundo ela, os neurônios se comunicam por sinais elétricos e neurotransmissores, e a neuromodulação altera a excitabilidade e a sincronia entre as redes cerebrais, além de induzir a neuroplasticidade, que corresponde a mudanças duradouras nas conexões sinápticas.
Uma das abordagens mais utilizadas atualmente é a neuromodulação não invasiva, na qual os estímulos são aplicados externamente, sem necessidade de cirurgia. A especialista explica que esse método permite modificar a atividade neuronal e o funcionamento das redes cerebrais de forma segura e ambulatorial, sem implantes ou procedimentos cirúrgicos, sendo frequentemente indicado como primeira opção terapêutica ou como complemento a outros tratamentos.
Além da forma não invasiva, existem outras modalidades de neuromodulação. A minimamente invasiva envolve pequenos procedimentos, como a implantação de eletrodos em nervos periféricos ou na medula espinhal, oferecendo um efeito mais potente com baixo risco cirúrgico. Já a neuromodulação invasiva exige cirurgia cerebral para implantar eletrodos diretamente no cérebro, possibilitando uma estimulação profunda e altamente precisa, indicada principalmente para casos graves, como formas avançadas da doença de Parkinson.
Há ainda a neuromodulação farmacológica, baseada no uso de medicamentos que atuam sobre neurotransmissores e circuitos cerebrais de maneira sistêmica. Embora amplamente utilizada, essa abordagem apresenta menor especificidade e maior risco de efeitos colaterais quando comparada às técnicas elétricas e magnéticas.
Dentro da neuromodulação não invasiva, dois métodos se destacam na prática clínica: a Estimulação Magnética Transcraniana e a Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua. Ambas utilizam estímulos aplicados externamente ao crânio, com protocolos específicos de acordo com cada condição clínica e objetivos terapêuticos.
Segundo a Dra. Gabrielli, a neuromodulação já vem sendo investigada para o tratamento de diversas condições, como zumbido, dependência química, transtornos alimentares, transtorno bipolar, esquizofrenia, alucinações auditivas, declínio cognitivo leve e doença de Alzheimer. Algumas dessas indicações ainda estão em fase de consolidação científica, mas os estudos têm avançado de forma consistente.
Em termos de alto nível de evidência científica, a Estimulação Magnética Transcraniana se destaca no tratamento da depressão refratária, quando não há resposta adequada aos medicamentos. Também há evidências robustas para transtorno obsessivo-compulsivo e para o tratamento da dor crônica e da dor neuropática. Já em nível moderado de evidência, a neuromodulação tem apresentado resultados positivos na reabilitação pós-AVC, contribuindo para a recuperação motora, da fala e para o manejo de sintomas emocionais, como a depressão associada ao quadro.
A técnica também demonstra benefícios em sintomas motores e não motores da doença de Parkinson, como rigidez, lentidão dos movimentos, fadiga e depressão. Em casos de epilepsia refratária, estudos indicam redução na frequência das crises, sempre como complemento ao tratamento médico convencional. A especialista ressalta que a neuromodulação não substitui medicamentos sem orientação profissional e que qualquer ajuste deve ser feito exclusivamente pelo médico responsável.
Outras condições que têm apresentado resposta positiva incluem transtornos de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, TDAH, fibromialgia e enxaqueca crônica. Apesar de algumas dessas indicações ainda serem classificadas como de evidência moderada, a prática clínica tem mostrado resultados expressivos, com redução da dor e diminuição da frequência das crises em muitos pacientes.
Com o avanço das pesquisas e a ampliação da aplicação clínica, a neuromodulação se consolida como uma ferramenta promissora na área da saúde, capaz de potencializar tratamentos tradicionais, contribuir para a recuperação funcional e melhorar a qualidade de vida de pacientes com diferentes condições neurológicas e psiquiátricas.
