MAURELIO MENEZES, Jornalista
Chega a ser divertido acompanhar os comentários “de ambos os dois lados”, baseados em nada, sobre a intervenção americana na Venezuela. Tanto os ataques quanto as defesas da ação americana são frutos de paixões cegas.
Sobre o ataque em si, Trump ontem chamou a atenção do mundo afirmando que iria intervir no Irã se o país reprimisse com violência as manifestações pacíficas contra o regime dos Aiatolahas. Foi o que bastou para os críticos de sempre virarem suas metralhadoras verbais contra o presidente americano. Enquanto falavam da ameaça ao Irã, a intervenção na Venezuela era colocada silenciosamente em prática.
China e Rússia, que seriam defensores de Maduro, resumiram sua defesa a notas oficiais, que têm o mesmo valor de uma nota de 3 reais. O porquê disso? Trump, como quem joga xadrez, está negociando um acordo de paz na guerra da Ucrânia, amplamente favorável à Moscou. Ao mesmo tempo diminuiu a resistência à anexação de Taiwan pela China. Com esses dois movimentos no tabuleiro global calou Moscou e Pequim.
A Venezuela tem a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, cerca de 300 bilhões de barris. Mas sua capacidade de produção foi destruída desde que Chávez chegou ao poder. Em 1970, sem a tecnologia de hoje, o país chegou a produzir 3 milhões e 800 mil barris/dia. E manteve números próximos a isso até 1999, quando Chávez assumiu. Hoje não produz nem um milhão.
O Diretor Geral da Agência Nacional de Petróleo do Brasil, Artur Watt Neto, um Procurador Federal da AGU, indicado por Lula, cuja formação é em Direito, com atuação na área de Direito Econômico no setor petrolífero, afirmou que a Petrobrás num primeiro momento será beneficiada com a intervenção. Pode ser, mas a produção atual de barris na Venezuela não tem poder de intervir no mercado.
Hoje o mundo produz cerca de 100 milhões de barris/dia, ou seja, a Venezuela produz menos de um por cento do total. Os EUA são os maiores produtores com cerca de 19 milhões de barris, seguidos pela Arábia Saudita, com cerca de 16 milhões, e Rússia. Cerca de 15 milhões. Estes três países têm, sim, poder de influir. Irã, Iraque, Emirados Árabes, que têm grandes reservas produzem cerca de 4 milhões de barris/dia, mesma quantidade do Brasil, quem a 15a. reserva comprovada do mundo, com 16 bilhões de barris.
A Prêmio Nobel da Paz e grande líder da oposição na Venezuela, Maria Corina Machado, defende indiretamente a intervenção. Ela terá papel importante na transição e, desde já, prega a volta “dos nossos filhos ao país”, referindo-se aos 8 milhões de venezuelanos que saíram de lá somente nos últimos dez anos. Trump não vê nela um líder com as características necessárias neste momento. Ela mesma não se coloca como tal e apoia Edmundo Urrutia, derrotado na eleição fraudada de Maduro.
Não se pode esquecer também que um dos alvos dos ataques foi Aragua, berço onde se concentra o Trem de Aragua, grupo narcoterrorista com tentáculos mundo afora. Com isso, a ideia seria sufocar o principal foco do tráfico de drogas do país, motivo inicial das ações americanas na Venezuela.
Tudo indica que antes das eleições no Brasil se terá o resultado, para o bem ou para o mal, seja lá qual for o sentido que se dê a “bem” e “mal”, da intervenção americana.

