
Ana Barros é jornalista em Cuiabá
Michel Temer esteve em Cuiabá para o Fórum de Sustentabilidade e Desenvolvimento Econômico e, como não poderia deixar de ser, falou de política. O ex-presidente resolveu defender seu apadrinhado Alexandre de Moraes, hoje o ministro mais poderoso do Supremo Tribunal Federal.
Segundo Temer, quando Moraes diz que não vai recuar “um milímetro” no julgamento de Jair Bolsonaro, na verdade estaria apenas reafirmando respeito às provas. Seria, portanto, um gesto de normalidade institucional. Mas convenhamos: qual juiz precisa avisar ao mundo que julgará conforme os autos? Isso não é obrigação básica de qualquer magistrado?
O problema é que Alexandre de Moraes, em sua cruzada contra Bolsonaro e seus aliados, já deixou de ser visto como juiz imparcial para assumir o papel de protagonista político. O STF, ao invés de guardião da Constituição, transformou-se num ator central da arena partidária, onde ministros parecem mais preocupados em dar entrevistas a jornais estrangeiros do que em preservar os limites de sua função.
Temer, claro, tenta blindar sua indicação. Afinal, foi ele quem levou Moraes ao Supremo. O discurso em Cuiabá soa mais como defesa de um legado pessoal do que uma leitura serena da realidade. Porque, na prática, o que se vê é um ministro que acumula poderes, centraliza processos e, em muitas ocasiões, atropela princípios constitucionais sob o pretexto de defender a democracia.
No próximo 2 de setembro, quando Bolsonaro e aliados, incluindo Braga Neto, sentarem no banco dos réus, o Brasil não estará apenas julgando os atos de um ex-presidente. Estará, também, medindo até onde o Supremo pode ir sem se transformar numa instância política acima de todas as outras.
Temer pode até “traduzir” Moraes. Mas a tradução que interessa é a da Constituição — e essa, infelizmente, vem sendo constantemente reescrita conforme a vontade de ministros que já não escondem seu protagonismo.